Conceitos de Tipo e de Traço de Personalidade

 

De acordo com H. EYSENCK, existem dois conceitos fundamentais para a descrição da personalidade: o traço de personalidade e o tipo de personalidade (ver Figura). São eles que conferem as reconhecidas propriedades de congruência e consistência do comportamento.

O traço de personalidade é «um conjunto de atos comportamentais co-variantes; o traço aparece assim como um princípio organizador que é deduzido a partir da generalidade do comportamento humano observado» (H. Eysenck, 1970, pp.9-10).

Esta co-variação refere-se: às correlações entre os resultados dos testes que medem o comportamento (de natureza experimental ou psicométrica); às correlações entre as observações do comportamento de vários sujeitos; e às correlações entre as medições de comportamento da mesma pessoa em diferentes ocasiões (estabilidade temporal). Ou seja, a noção de traço, expressa pela estabilidade, consistência e ocorrência repetida dos comportamentos, encontra-se intimamente ligada ao conceito de correlação.

Apesar do conceito de traço ter sido introduzido por Allport, em 1937, H. Eysenck discordava do sentido que o autor lhe conferia. Segundo Allport, os traços não poderiam ser estudados por meio do raciocínio dedutivo (análise fatorial, correlação), uma vez que não eram diretamente observáveis; a única forma de os estudar seria através da observação e da análise da vida individual de cada sujeito, mediante as inferências originadas pela estabilidade e consistência demonstradas pelos atos separados de um determinado comportamento observável (abordagem idiográfica).

O tipo de personalidade é definido por H. Eysenck como «um grupo de traços correlacionados, tal como um traço era definido como um grupo de tendências de ação ou atos comportamentais correlacionados; de acordo com este ponto de vista, então, a diferença entre os conceitos de traço e tipo não assenta na continuidade ou falta de continuidade da variável hipotetizada, nem na sua forma de distribuição, mas na maior abrangência do conceito de tipo» (H. Eysenck, 1970, p.13).

A conceptualização eysenckiana do tipo resultou da reformulação dos conceitos apresentados por Carl Jung (1875-1961) , Kretschmer e MacKinnon.  Embora estes conceitos tenham sido importantes, H. Eysenck considerou-os bastante limitados.

Para Jung, o tipo psicológico é um mecanismo: todos os indivíduos possuem o mecanismo de extroversão e o mecanismo de introversão; é a força relativa de um mecanismo comparado com o outro que cria o tipo; no curso da vida, existe uma alternância rítmica destas duas funções psíquicas, e são as circunstâncias externas em confronto com as disposições internas que favorecem um dos mecanismos (extroversão ou introversão), resultando na restrição (exclusão funcional) do outro; isto leva a que um dos mecanismos seja dominante; se esta dominância se torna crónica, então manifesta-se o tipo (Jung, 1921).

H. Eysenck considerou que a limitação desta perspetiva incide na descontinuidade que existe entre o tipo extrovertido e o tipo introvertido, não podendo estes co-existir num mesmo espaço dimensional. Uma vez que um tipo anula o outro, por sobreposição, os sujeitos seriam completamente extrovertidos ou completamente introvertidos.

Ao invés, no modelo eysenckiano da personalidade, todos os sujeitos se situam num contínuo de uma mesma dimensão, como é o caso da Extroversão, na qual os extrovertidos e os introvertidos representam os seus dois polos opostos. No entanto, associada à preponderância dos traços que definem o seu tipo, os extrovertidos e os introvertidos partilham determinados traços e em diversos graus.

Na conceção de Kretschmer, a natureza do tipo é biológica e constitucional: o tipo é o mais importante conceito da Biologia; a Natureza não funciona com contrastes e definições precisas como as que derivam do pensamento humano e da sua necessidade de compreensão; na Natureza, as transições fluidas (ou dinâmicas) são a regra; nos diversos domínios, estão constantemente a surgir novos agrupamentos; quando estes agrupamentos são estudados de modo objetivo, originam pontos-focais de correlações estatísticas, que consistem em concentrações de traços correlacionados (grupos de características que ocorrem frequentemente); o que é essencial, não é uma única correlação, mas antes os grupos de correlações; só assim é possível compreender as conexões mais profundas; no sistema descritivo, os pontos-focais correspondem aos tipos constitucionais; um tipo constitucional conduz a cada vez mais conexões de importância biológica, podendo originar novos pontos-focais (Kretschmer, 1948).

Para H. Eysenck, a limitação da definição de Kretschmer era metodológica e não conceptual, uma vez que o autor, ao contrário de Jung, não considerava o tipo constitucional como uma classificação absoluta. De facto, a análise dos traços correlacionados é muito importante para o estudo da personalidade.

Contudo, nesta definição, o tipo refere-se apenas às correlações observadas, o que compromete a perspetiva contínua dos comportamentos (designadamente, entre a normalidade e a patologia). Esta continuidade só poderia ser alcançada através da aplicação de uma metodologia de análise capaz de identificar, a partir da matriz das correlações, quais as variáveis latentes que determinam as variáveis observadas. Neste contexto, a metodologia adequada seria a análise fatorial e a análise de critério.

Na perspetiva de MacKinnon, os tipos dizem respeito às manifestações diretas da essência da personalidade, por sobressaírem invariavelmente no comportamento humano e por serem facilmente detetáveis. Todavia, o esquema de interrelações inerente aos tipos, apesar de poder ser compreendido com facilidade, é de difícil comprovação. Por isso, apenas os tipos bem definidos podem ser testados (MacKinnon, 1944).

Nesta perspetiva, a limitação era também metodológica, devido à carência de operacionalização dos conceitos e consequente comprovação empírica.

Em suma, os traços de personalidade são essencialmente fatores disposicionais que determinam de modo constante e persistente o comportamento dos sujeitos. Os traços (por exemplo, reservado, sereno, persistente) que se encontram intercorrelacionados entre si originam um tipo (em função do exemplo, o tipo introvertido). Isto é, o tipo de personalidade diz respeito a um conceito hierarquicamente superior ao conceito de traço de personalidade.

As definições de traço e tipo apresentadas por H. Eysenck baseiam-se em conceitos cientificamente comprovados e possuem um vasto suporte empírico.

No estudo da personalidade, outro dos contrastes que é muitas vezes estabelecido diz respeito à diferenciação entre os estados (ou humores) e os traços de personalidade.

Por exemplo, a ansiedade-estado e a ansiedade-traço são dois conceitos relacionados entre si.

Charles Spielberger distingue o estado de ansiedade, que é experienciado pelos sujeitos que sentem ansiedade perante uma determinada situação, do traço de ansiedade, que caracteriza os sujeitos com um temperamento ansioso.

Com efeito, o estado de ansiedade refere-se ao corte transversal na corrente emocional da vida do sujeito que se caracteriza pelos sentimentos subjetivos de tensão, apreensão, nervosismo e preocupação, acompanhados de uma ativação do Sistema Nervoso Autónomo.

Por seu turno, o traço de ansiedade remete para as diferenças individuais relativamente estáveis envolvidas na propensão do sujeito para a ansiedade. Ou seja, este traço reflete as diferenças individuais que determinam a maneira do sujeito percecionar as situações de stress, em termos de perigosidade e ameaça, e de reagir perante as situações, através das elevações mais frequentes e intensas do estado de ansiedade.

Neste sentido, também os conceitos de estado e traço de personalidade se encontram intrinsecamente relacionados.

Do mesmo modo, H. Eysenck considera importante diferenciar os estados dos traços, dada a sua utilidade para a compreensão de certos comportamentos (singulares) manifestados pelos sujeitos em situações específicas.

Com efeito, na confrontação com determinados acontecimentos de vida, espera-se que um sujeito que tenha um temperamento ansioso (traço) apresente um nível de ansiedade superior ao de um sujeito que seja tendencialmente calmo. Não obstante, um sujeito tendencialmente calmo também pode comportar-se de modo ansioso perante uma determinada situação (estado).

Por esta razão, a compreensão do comportamento dos indivíduos requer, por um lado, a análise da interação entre os traços de personalidade e as situações específicas, e por outro, a análise dos estados manifestados perante essas situações, sobretudo quando as respostas comportamentais específicas manifestadas não são as habituais.

A par disso, o grau de mudança dos estados também deve ser objeto de análise, uma vez que esta pode ser uma característica dos traços de personalidade do sujeito.

Segundo a tipologia de Wundt, a mudança nos estados (ou humores), como uma característica da personalidade, pode ser descrita através da dimensão de velocidade de mudança, que qualifica: num extremo, a mutabilidade, manifestada pelas mudanças rápidas no humor; e no outro extremo, a imutabilidade, manifestada pelas mudanças lentas no humor.

Esta dimensão tem uma certa correspondência com a dimensão de Extroversão do modelo de H. Eysenck: os indivíduos extrovertidos tendem a experienciar mais mudanças de humor (estados), em quantidade e rapidez, do que os indivíduos introvertidos.

 

Bibliografia

  • Almiro, P.A. (2013). Adaptação, validação e aferição do EPQ-R para a população portuguesa: Estudos em contextos clínico, forense e na comunidade. Dissertação de Doutoramento, Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, Coimbra.

  • Eysenck, H.J. (1970). The structure of human personality (3rd ed.). London: Methuen.

  • Eysenck, H.J., & Eysenck, M.W. (1985). Personality and individual differences: A natural science approach. New York: Plenum Press.

 

COMO CITAR ESTE SITE:
Almiro, P.A. (2013). H.J. Eysenck: Meio Século de Inovação. Consultado a XX/XX/XXXX em https://hj-eysenck.webnode.pt/.