Instrumentos de Avaliação da Personalidade

 

Durante mais de cinco décadas, H. EYSENCK dedicou-se à investigação da personalidade. Para a avaliar, o autor elaborou diversos instrumentos, que foram sendo aperfeiçoados ao longo dos anos.

O MAUDSLEY MEDICAL QUESTIONNAIRE (MMQ, 40 itens; Questionário Médico de Maudsley) foi o primeiro questionário de personalidade construído por H. Eysenck, em 1952, no âmbito do Modelo Bi-Dimensional (1947). Este questionário surgiu com o objetivo de medir as dimensões de Neuroticismo (N) e de Extroversão (E). O MMQ continha alguns itens da escala Lie (Mentira) do Inventário Multifásico de Personalidade de Minnesota (MMPI; Hathaway, & McKinley, 1943).

Apesar do MMQ ser útil na discriminação entre grupos normativos e grupos de doentes neuróticos (dimensão N), a avaliação realizada pela sua dimensão E era desajustada para diferenciar as perturbações distímicas das perturbações histéricas.

Em 1959, surgiu o MAUDSLEY PERSONALITY INVENTORY (MPI, 48 itens; Inventário de Personalidade de Maudsley), que avaliava as mesmas dimensões, Neuroticismo (N) e Extroversão (E), incluindo os itens do MMQ e alguns itens do Guilford-Zimmerman Temperament Survey (GZTS; Guilford, & Zimmerman, 1956).

No entanto, as dimensões N e E do MPI assumiam uma correlação negativa entre si, o que contrariava o princípio da ortogonalidade.

Em Portugal, o MPI foi estudado por Vaz Serra e Allen Gomes (1973).

Para colmatar a limitação do MPI, H. Eysenck e S. Eysenck desenvolveram, em 1964, o EYSENCK PERSONALITY INVENTORY (EPI, 57 itens, forma A e B; Inventário de Personalidade de Eysenck), cujas dimensões de Neuroticismo (N) e de Extroversão (E) eram independentes (ortogonais).

O EPI possuía melhores qualidades psicométricas do que o MPI (nomeadamente em termos de precisão) e surgiu com uma nova escala de mentira (Lie), a escala L, para controlar os efeitos da desejabilidade social nos resultados obtidos pelo teste. As correlações entre o MPI e o EPI eram muito elevadas, o que permitiu concluir que as dimensões N e E medidas pelos dois instrumentos eram as mesmas.

As duas formas do EPI – A e B – permitiam realizar avaliações repetidas com os mesmos sujeitos (formas paralelas). Foi também desenvolvida uma versão do EPI para crianças e adolescentes, o JEPI (Junior Eysenck Personality Inventory).

A versão portuguesa do INVENTÁRIO DE PERSONALIDADE DE EYSENCK foi estudada por Vaz Serra, Ponciano e Fidalgo Freitas (1980).

 

No âmbito do Modelo P-E-N (1975), H. Eysenck e S. Eysenck elaboraram o EYSENCK PERSONALITY QUESTIONNAIRE (EPQ, 90 itens; Questionário de Personalidade de Eysenck) em 1975. Este questionário surgiu com o objetivo de avaliar as três dimensões fundamentais da personalidade: o Psicoticismo (P), a Extroversão (E) e o Neuroticismo (N).

Em relação ao EPI (N, E, L), o EPQ passou então a integrar uma nova escala, P, para medir a dimensão de Psicoticismo. A inclusão desta escala baseou-se nos estudos realizados com doentes bipolares, psicóticos e psicopatas (publicados em 1976 no livro «Psychoticism as a Dimension of Personality»). As escalas N, E, L mantiveram-se inalteradas. Por isso, as correlações entre estas escalas do EPI e do EPQ eram muito elevadas, o que permitiu concluir que as dimensões avaliadas eram as mesmas.

Na sua versão original (inglesa), o EPQ é composto por quatro escalas: P, com 25 itens; E, com 21 itens; N, com 23 itens; L (Mentira/Desejabilidade Social), com 21 itens (itens dicotómicos, resposta “Sim”/“Não”). Este questionário tem duas formas: uma para adultos, o EPQ-A (Adulto), e outra para crianças e adolescentes, o EPQ-J (Júnior).

Os estudos psicométricos realizados com o EPQ revelaram, na generalidade, bons índices de validade e de precisão. No exame da validade, H. Eysenck e S. Eysenck (1975) obtiveram, através da análise fatorial, uma solução de quatro fatores, que correspondem às quatro escalas do instrumento (P, E, N, L). Esta solução fatorial foi invariavelmente replicada nos estudos interculturais realizados em mais de 37 países, o que demonstra a robustez e a adequabilidade do Modelo P-E-N. Os países foram os seguintes: na Europa, Alemanha, Bulgária, ex-Checoslováquia, Espanha (incluindo a região autónoma da Catalunha), Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hungria, Irlanda, Islândia, Itália, ex-Jugoslávia, Lituânia, Noruega, Polónia, Portugal, Reino Unido, Roménia, Suécia; na América, Brasil, Canadá, Estados Unidos, México, Porto Rico; na Ásia, Bangladesh, China (incluindo a região administrativa de Hong Kong), Coreia, Índia, Irão, Israel, Japão, Líbano, Rússia (Eurásia), Singapura, Sri Lanka; na Oceânia, Austrália; em África, Egipto, Nigéria, Uganda, Zimbabwe.

Estes estudos interculturais consistiram na adaptação e validação do EPQ (tradução/retroversão da versão original), nos respetivos estudos de validade e precisão, na análise da correspondência entre as estruturas fatoriais obtidas e na comparação dos dados normativos.

Em Portugal, a versão para adultos do QUESTIONÁRIO DE PERSONALIDADE DE EYSENCK foi estudada por Castro Fonseca, S. Eysenck e A. Simões (1991), e a versão para crianças e jovens do QUESTIONÁRIO DE PERSONALIDADE DE EYSENCK foi estudada por Castro Fonseca e S. Eysenck (1989).

Em 1985, S. Eysenck, H. Eysenck e Barrett construíram o EYSENCK PERSONALITY QUESTIONNAIRE – REVISED (EPQ-R, 100 itens; Questionário de Personalidade de Eysenck – Forma Revista), a versão revista do EPQ. Com esta revisão, surgiu também uma versão reduzida do EPQ-R: o EYSENCK PERSONALITY QUESTIONNAIRE REVISED – SHORT (EPQR-S, 48 itens, 12 itens por escala; Versão Reduzida do Questionário de Personalidade de Eysenck – Forma Revista).

Apesar das boas qualidades psicométricas do EPQ, algumas versões deste instrumento apresentaram limitações ao nível da escala P, nomeadamente, uma precisão reduzida (consistência interna), uma baixa amplitude das pontuações, e uma inadequada distribuição das pontuações.

De acordo com H. Eysenck, estas limitações, que se repercutiram no reduzido índice de consistência interna, teriam origem na abrangência dos constructos medidos pela escala P (traços de agressividade, impulsividade, inconformismo, entre outros) e na sua consequente heterogeneidade. Por isso, o EPQ-R surgiu com o objetivo de contornar as referidas limitações.

Este objetivo foi alcançado, uma vez que o EPQ-R apresenta melhores índices de precisão do que o EPQ, sobretudo na escala P. O EPQ-R revela também bons índices de validade, mantendo a mesma estrutura fatorial do EPQ.

O EPQ-R avalia as três dimensões fundamentais da personalidade: o Psicoticismo (P), a Extroversão (E) e o Neuroticismo (N). A versão original (inglesa) deste instrumento é constituída por quatro escalas: P, com 32 itens; E, com 23 itens; N, com 24 itens; L (Mentira/Desejabilidade Social), com 21 itens (itens dicotómicos, resposta “Sim”/“Não”).

Em relação ao EPQ, foram retidos 19 dos 25 itens que compunham a anterior escala P (6 itens foram eliminados) e acrescentaram-se 13 novos itens, ficando a nova escala P com um total de 32 itens. Na escala E, foram adicionados 2 novos itens, e na escala N, 1 novo item.

Pelo facto das alterações introduzidas no EPQ-R terem incidido fundamentalmente na reformulação da escala P, mantendo a escala L inalterada e introduzindo muito poucos itens, os estudos efetuados com o EPQ constituem uma evidência empírica da validade do EPQ-R, sobretudo em relação às escalas E, N, L.

Ao longo dos últimos 38 anos (entre 1975 e 2013), foram realizados estudos de validade e de precisão em mais de 37 países, nos 5 continentes (já mencionados). Durante esse período, as amostras em estudo foram sendo atualizadas e foram desenvolvidos novos estudos com as versões revistas do EPQ: o EPQ-R e o EPQR-S.

Embora as escalas P do EPQ e P do EPQ-R contenham diferenças decorrentes das modificações introduzidas, as correlações obtidas entre si são muito elevadas (superiores a .80), o que demonstra a existência de uma sobreposição entre os constructos de Psicoticismo avaliados pelos dois instrumentos.

A versão portuguesa do QUESTIONÁRIO DE PERSONALIDADE DE EYSENCK – FORMA REVISTA foi estudada por Almiro e M.R. Simões (2013).

No âmbito do Modelo P-E-N (1975), foram ainda desenvolvidos dois instrumentos de avaliação: a ABBREVIATED FORM OF THE REVISED EYSENCK PERSONALITY QUESTIONNAIRE (EPQR-A; Versão Abreviada do Questionário de Personalidade de Eysenck – Forma Revista), de Francis, Brown e Philipchalk (1992), e o EYSENCK PERSONALITY PROFILER (EPP; Perfil de Personalidade de Eysenck), de H. Eysenck e G. Wilson (1991).

O EPQR-A tem 24 itens (6 itens por escala; itens dicotómicos, resposta “Sim”/“Não”) e é uma forma abreviada do EPQR-S (48 itens); esta versão foi construída com o intuito de reduzir o tempo de aplicação.

Por sua vez, o EPP é composto por 440 itens (140 itens nas escalas P, E, N, e 20 itens na escala L; resposta “Sim”, “Não” ou “Não Sei”) e avalia as dimensões fundamentais da personalidade – P, E, N – em 21 traços primários (7 traços em cada dimensão). Este instrumento foi elaborado no domínio da Psicologia do Trabalho e das Organizações. Foram também construídas algumas versões reduzidas do EPP.

 

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