EPQ-R

 

O QUESTIONÁRIO DE PERSONALIDADE DE EYSENCK – FORMA REVISTA (EPQ-R) foi construído em 1985 por S. Eysenck, H. Eysenck e Barrett.

O EPQ-R é um instrumento de avaliação da personalidade (método objetivo) baseado no Modelo P-E-N de H. Eysenck (Big Three), que se enquadra numa abordagem nomotética.

A versão original (inglesa) deste instrumento é constituída por 100 itens dicotómicos, de resposta “Sim”/“Não” (itens cotados de modo direto e itens cotados de modo inverso).

Os estudos de adaptação, validação e aferição do EPQ-R para a população portuguesa foram efetuados por Almiro e M.R. Simões (2013, 2014, 2015). No estudo português, as potencialidades deste instrumento foram exploradas no contexto da comunidade e nos contextos clínico e forense.

 

O EPQ-R avalia as três dimensões/fatores fundamentais da personalidade – o Psicoticismo, a Extroversão e o Neuroticismo – e contém uma escala de Mentira/Desejabilidade Social – a escala L (Lie).

O fator N avalia, num continuum, a personalidade neurótica – que engloba os traços de emotividade, ansiedade, depressão, hiper-preocupação, irritabilidade fácil, sentimentos de culpa, baixa autoestima, entre outros – e a personalidade estável – caracterizada pelos traços opostos de serenidade, controlo, boa disposição, entre outros.

O fator E avalia, num continuum, a personalidade extrovertida – que abrange os traços de sociabilidade, vivacidade, atividade, assertividade, dominância, espontaneidade, espírito de aventura, otimismo, entre outros – e a personalidade introvertida – caracterizada pelos traços opostos de introspeção, inibição, baixa sociabilidade, cautela, pessimismo, entre outros.

O fator P avalia, num continuum entre a normalidade e a psicopatologia, os sujeitos que são criativos, egocêntricos, pouco empáticos, desconfiados, rígidos, desajustados, impulsivos, hostis e agressivos, entre outros traços.

A escala L é uma medida de desejabilidade social; ou seja, pretende avaliar a tendência dos sujeitos para atribuir a si próprios atitudes/comportamentos com valores socialmente desejáveis e para rejeitar em si mesmos a presença de atitudes/comportamentos com valores socialmente indesejáveis.

Em situação de avaliação, estes sujeitos também podem apresentar comportamentos de dissimulação e de defensividade (“fake good”). Esta “distorção”, que pode ocorrer ou não de forma consciente, constitui um fator importante a considerar no enviesamento das respostas.

 

Na versão portuguesa do EPQ-R, constituída por 70 itens, a escala N possui 23 itens, a escala E possui 20 itens (19 itens cotados de modo direto e 1 item cotado de modo inverso), a escala P possui 9 itens (4 itens cotados de modo direto e 5 itens cotados de modo inverso), e escala L possui 18 itens (4 itens cotados de modo direto e 14 itens cotados de modo inverso).

O EPQ-R é um teste normativo (com referência à norma) e pode ser aplicado a sujeitos com mais de 16 anos (adolescentes, adultos e idosos), para fins de investigação e de avaliação psicológica na comunidade e em diversos contextos (por exemplo, saúde, clínico, forense, militar, educacional, vocacional, organizacional, trabalho, social, entre outros).

A aplicação do EPQ-R pode ser individual ou coletiva, porque é um questionário de autorresposta.

Trata-se de um teste de papel-e-lápis, cujo material consiste no próprio questionário (70 itens), que contém as instruções para o seu preenchimento: «Por favor, em cada questão que se segue responda Sim ( S ) ou Não ( N ), assinalando com uma cruz ( X ). Não há respostas “certas” ou “erradas”, por isso responda de acordo com a sua maneira habitual de ser, pensar e sentir. Responda rapidamente e não pense demasiado no significado exato das mesmas questões. As respostas são confidenciais».

O tempo médio de administração individual, em contexto normativo, varia entre 10 e 15 minutos. Para cada questão (item), o sujeito deve assinalar “Sim” ou “Não”, “de acordo com a sua maneira habitual de ser, pensar e sentir”.

Nas quatro escalas do EPQ-R (P, E, N, L), a correção das respostas é efetuada mediante uma chave de cotação. As escalas são independentes entre si (seguindo o princípio da ortogonalidade) e, por isso, a pontuação obtida em cada escala é independente das restantes (este questionário não possui um nota global).

 

As normas para a interpretação do EPQ-R foram estabelecidas na versão original inglesa através das médias (M) e dos desvios-padrão (DP) das pontuações obtidas para cada escala, em função do género (homens e mulheres) e da idade (entre os 16 e os 70 anos: 16-20, 21-30, 31-40, 41-50, 51-60, 61-70). Na versão portuguesa, seguiu-se o mesmo procedimento.

Embora o EPQ-R tenha uma reconhecida aplicabilidade clínica e forense, foi construído para avaliar o funcionamento normal da personalidade. Por isso, as pontuações devem ser interpretadas com referência às normas obtidas no contexto da comunidade (amostra normativa).

A avaliação da personalidade proporcionada pelo EPQ-R resulta da descrição das características emocionais e comportamentais (relacionadas com o carácter, o temperamento e os aspetos intelectuais e físicos) do sujeito, em função das dimensões P, E, N (fatores de segunda-ordem ou superfatores), que são integradas num sistema compreensivo de análise dos traços (fatores de primeira-ordem ou fatores primários).

A avaliação da escala L, como uma medida de Mentira/Desejabilidade Social, constitui um elemento essencial na apreciação da personalidade do sujeito e do seu nível de sinceridade a responder ao questionário (escala de validade).

 

Para examinar as propriedades psicométricas da versão portuguesa do EPQ-R, foram efetuados estudos de precisão e de validade no âmbito da Teoria Clássica dos Testes (TCT) e da Teoria da Resposta ao Item (TRI) (Almiro, 2013; Almiro, & M.R. Simões, 2013, 2014, 2015).

Na TCT, foi estudada: a precisão, pela análise da consistência interna e teste-reteste (estabilidade temporal entre 4 a 8 semanas); a validade de constructo, pela análise fatorial exploratória (AFE) e pela análise fatorial confirmatória (AFC); a validade de critério concorrente, utilizando o Inventário Depressivo de Beck II (BDI-II), o Inventário de Estado-Traço de Ansiedade (STAI), o Inventário de Sintomas Psicopatológicos (BSI), a Escala de Desejabilidade Social de Marlowe-Crowne (MCSDS), as Paulhus Deception Scales (PDS), a Escala de Avaliação da Vulnerabilidade ao Stress (23QVS) e o Inventário dos Cinco Fatores (NEO-FFI).

Na TRI, aplicando o Modelo de Rasch, realizou-se: a análise da qualidade dos itens, através da estatística infit e outfit; o estudo da precisão, pela precisão da separação dos itens, pela precisão da separação dos sujeitos e pelo erro padrão; o estudo da validade, pela análise de componentes principais dos resíduos (ACPR) e pela análise do funcionamento diferencial dos itens (DIF).

A versão portuguesa do EPQ-R apresentou, na generalidade, bons índices de precisão e de validade, replicando a estrutura fatorial da versão original do questionário (inglesa). Os dados obtidos comprovaram que o EPQ-R mede convenientemente os constructos de Neuroticismo, Extroversão e Psicoticismo definidos por H. Eysenck (validade de constructo), e que o EPQ-R é um instrumento de avaliação da personalidade adequado ao contexto português.

 

Nestes estudos, participaram 1689 sujeitos, 783 homens (46.36%) e 906 mulheres (53.64%), com idades entre 16 e 60 anos (amostra masculina, M=32.58, DP = 11.66; amostra feminina, M=32.13, DP = 10.81).

A amostra nacional em estudo era extensa e representativa da população. Os sujeitos avaliados exerciam profissões diferentes e eram provenientes das diversas regiões de Portugal, definidas por NUTS, pelo Instituto Nacional de Estatística (2002, 2012): Norte, 35.76%, n=604; Centro, 22.02%, n=372; Lisboa, 25.40%, n=429; Alentejo, 8.00%, n=135; Algarve, 3.97%, n=67; Açores, 2.78%, n=47; Madeira, 2.07%, n=35) [localização geográfica, litoral (80.70%, n=1363) e interior (19.30%, n=326)]. As variáveis escolaridade e estado civil foram igualmente consideradas nestas pesquisas.

Foram também realizados estudos de validação do EPQ-R no contexto clínico (N=207), no contexto forense (N=85), um estudo normativo com uma amostra de adultos idoso (N=205; idades superiores a 60 anos), e um estudo de validação no contexto militar (N=568).

A obtenção de pontuações significativamente diferentes entre as diversas amostras avaliadas (normativa, clínica, forense, idosos e militares) justificou a definição de normas diferenciadas para cada tipo de população.

 

A construção da versão portuguesa do EPQ-R (Almiro, & M.R. Simões, 2013) e os estudos psicométricos efetuados com esta versão basearam-se nas normas habitualmente utilizadas neste tipo de investigação (cf. Nunnally, 1978; Kline, 1986, 1993; Hambleton, & Swaminathan, 1985; Hambleton, 1994, 2001; Hambleton, Merenda, & Spielberger, 2005; American Educational Research Association, American Psychological Association, National Council on Measurement in Education, 1999; International Test Commission, 1999/2003; Geisinger, 2003; Robins, Fraley, & Krueger, 2007).

 

Bibliografia

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  • Almiro, P.A., & Simões, M.R. (2013). Manual da versão portuguesa do Questionário de Personalidade de Eysenck – Forma Revista (EPQ-R). Coimbra: Laboratório de Avaliação Psicológica e Psicometria / Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.

  • Almiro, P.A., & Simões, M.R. (2014). Questionário de Personalidade de Eysenck – Forma Revista (EPQ-R). In L.S. Almeida, M.R. Simões, & M.M. Gonçalves (Eds.), Instrumentos e contextos de avaliação psicológica Vol. II (pp.211-229). Coimbra: Edições Almedina.

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